O conceito de agricultura regenerativa ganhou espaço no agronegócio, mas ainda existe uma diferença importante entre declarar a adoção de determinadas práticas e demonstrar, com indicadores, como elas se comportam em uma operação agrícola de larga escala.
Parte do problema é que os cases mais citados no mercado são globais e genéricos, construídos por grandes compradoras de commodity para reforçar cadeia de suprimento: números bons de manchete, curtos em série histórica e raros em transparência de operação própria. Falta o que você, que toca lavoura, realmente precisa: uma série de safras, numa fazenda de grande escala, com número antes e depois.
Para responder isso sem enrolação, este artigo resume os dados mostrados pelo Dr. Aurélio Pavinato — engenheiro agrônomo, mestre e doutor em Ciência do Solo pela UFRGS e hoje CEO da SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de soja, milho e algodão do Brasil.
A palestra fez parte do Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo 2026 (SBSS) e responde: a agricultura regenerativa aumenta produtividade? gera retorno econômico?; veja a cobertura completa do evento. Nela, Pavinato abriu números internos da própria empresa: cinco safras de bioinsumos, área certificada em agricultura regenerativa e economia real com aplicação localizada de defensivos.

Produtividade é consequência
A tese central de Pavinato é direta: os últimos 50 anos de sucesso do agro brasileiro não vieram de expansão de área; vieram de ganho de produtividade sustentado por tecnologia e manejo. Na frase-síntese da palestra:
“Produtividade é consequência.” — “Tecnologia no manejo, tudo que nós fizemos no dia a dia nas nossas fazendas, a produtividade é consequência disso, e por isso que nós conseguimos esse sucesso todo.” — Aurélio Pavinato
Para dimensionar o quanto essa ideia contraria o senso comum antigo, vale um contraponto histórico. Pavinato lembrou que seu orientador de doutorado nos Estados Unidos, ainda em 1960, resumia o consenso da época sobre regiões de clima tropical:
“As regiões tropicais elas estão condenadas à miséria.”
Não existia tecnologia para produzir bem no trópico, e todo país tropical era, à época, um país pobre. A revolução do plantio direto e da cobertura de solo no Brasil é o que reverteu esse diagnóstico.
Fica então a pergunta que estrutura o resto deste artigo: se produtividade é consequência de manejo, a agricultura regenerativa é causa desse ganho, ou é só reforço de imagem em cima de um resultado que já viria de qualquer forma? Os dados apresentados por Pavinato ajudam a responder parte dessa questão, mas também mostram os limites do que é possível concluir a partir de um case empresarial.
Em resumo: agricultura regenerativa aumenta produtividade?
Os dados apresentados pela SLC Agrícola não permitem afirmar, isoladamente, que a agricultura regenerativa causou aumento de produtividade. O que eles mostram é a adoção de práticas associadas à agricultura regenerativa em uma operação de larga escala, acompanhada de indicadores de saúde do solo, eficiência no uso de insumos e evolução tecnológica.
Brasil x mundo: o tamanho do diferencial de produtividade
O tamanho do diferencial brasileiro aparece quando você compara CAGR (Compound Annual Growth Rate ou Taxa de Crescimento Anual Composta), não safra isolada. Em 50 anos, a produção de grãos do Brasil saltou de 47 milhões de toneladas para 360 milhões de toneladas — um crescimento de +667%, CAGR de 4,25% ao ano. A área plantada de 1ª safra cresceu bem menos no mesmo período: de 31 para 57 milhões de hectares (+84%, CAGR de 1,25% ao ano). A diferença entre os dois ritmos é produtividade: CAGR de 2,9% a 2,95% ao ano na produtividade da terra brasileira (incluindo 2ª safra), contra 1,5% ao ano de CAGR da produtividade mundial no mesmo período.
Pavinato traduz essa diferença de CAGR num contrafactual direto:
“Se nós tivéssemos aumentado [a produtividade] igual o mundo, não estaria produzindo 360 hoje, estaria produzindo 250, com a mesma área.” — Aurélio Pavinato
Ou seja: só o excedente de produtividade brasileira sobre a média mundial equivale a 110 milhões de toneladas de grãos a mais, na mesma área. Para o panorama histórico completo de como o Brasil chegou a esses números, veja a evolução da produção agrícola brasileira.

Práticas que fazem parte da evolução dos sistemas agrícolas brasileiros e sustentam o aumento da produtividade
O crescimento na produtividade brasileira se apoia num conjunto específico de práticas, que são a base do sistema brasileiro:
- Sistema de Plantio Direto (SPD),
- o mix de culturas de cobertura,
- a Integração Lavoura-Pecuária (ILP)
- e o Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIP/MID).
Pavinato destacou que a inclusão de leguminosas em misturas de cobertura com gramíneas pode contribuir para a fixação biológica de nitrogênio, além de ampliar a diversidade do sistema e o aporte de carbono no sistema:
“O mix de cobertura de solo eu estou vendo como sendo realmente a solução para aumentar a diversidade biológica do sistema, adicionar mais carbono e aumentar a fixação de nitrogênio no sistema.” — Aurélio Pavinato
Há uma nuance técnica que vale reter: rotação clássica (cultura diferente a cada ano) não é a mesma coisa que sucessão (1ª e 2ª safra dentro do mesmo ano civil, o que Pavinato chama de “rotação entre aspas”). Na avaliação apresentada por Pavinato, a sucessão ganha importância porque permite duas culturas e, consequentemente, duas oportunidades de produção e adição de matéria seca ao sistema.
Pavinato porém traz uma ressalva: a sucessão soja → algodão, por não envolver nenhuma gramínea, ainda é uma dúvida em aberto quanto à sustentabilidade de longo prazo, por questões de doenças e carbono no solo (voltamos a esse ponto mais pra frente).
O case SLC Agrícola: cinco safras de dados sobre agricultura regenerativa
Aqui está o núcleo do artigo: a série histórica de uma operação real, não um estudo de caso genérico. A SLC Agrícola tem hoje 325.769 hectares certificados em agricultura regenerativa (soja e algodão) — o que a torna a maior empresa certificada das Américas nessa categoria. A meta declarada da empresa para 2030 é 550.864 hectares.
Olhando safra a safra, a área tratada com bioinsumos na SLC evoluiu assim: 1,572 milhão de hectares em 2020/21, 1,985 milhão em 2021/22, 3,682 milhões em 2022/23, 5,178 milhões em 2023/24 e 5,323 milhões de hectares em 2024/25 — um aumento de aproximadamente 239%, ou 3,4 vezes (Figura 1). A participação de biológicos no total de aplicações da empresa acompanhou esse movimento: 11,40% (2020/21), 15,00% (2021/22), 13,98% (2022/23), 16,67% (2023/24) e 17,70% (2024/25, dado atualizado em setembro/2025).
E o que isso fez com a saúde do solo? Pelos indicadores internos da empresa:
- 86% das áreas agrícolas da SLC estão com IQS Fertbio alto ou muito alto — indicador de qualidade biológica do solo desenvolvido pela pesquisadora Dra. Ieda,/ Mendes da Embrapa Cerrados, que mede duas enzimas do solo associadas a potencial produtivo.
- Outros 69% das áreas apresentam condição adequada de ciclagem de nutrientes
A SLC agrícola faz diagnóstico anual de solo (BioAS) em 35% de sua área física. E Pavinato enfatizou durante sua palestra:
“O que a gente está visualizando nas nossas lavouras: cada ano que passa, os nossos solos estão ficando melhores. Melhor significa com mais saúde do solo.” — Aurélio Pavinato
Tabela 1. Pilares da agricultura regenerativa na SLC Agrícola e indicadores de adoção
| Pilar | Indicador de adoção na SLC |
| Plantio Direto | Base histórica do sistema produtivo da empresa |
| Cobertura do solo (mix gramínea + leguminosa) | Gramínea 44,2%; Brassica 40,1%; Gramínea+Leguminosa 13,1%; Leguminosa 1,8%; Poligonácea 0,7% do mix |
| Integração Lavoura-Pecuária (ILP) | Parte do sistema de rotação/sucessão da empresa |
| Rotação / Sucessão de culturas | Indicadores de solo mostram sustentabilidade da sucessão (com ressalva soja-algodão) |
| MIP/MID e agricultura de precisão | 89% das lavouras mapeadas em agricultura de precisão; 93% citado para taxa variável de fertilizante (fósforo, potássio, calcário) |
| Biológicos / bioinsumos | 17,70% das aplicações da safra 2024/25 |
| Qualidade do solo (IQS Fertbio) | 86% das áreas com IQS Fertbio alto/muito alto |
| Certificação regenerativa | 325.769 ha certificados / meta de 550.864 ha até 2030 |
Quanto de economia a agricultura regenerativa trás: aplicação localizada e bioinsumos na prática
Regenerativo também é economia mensurável, não só indicador de solo. Na safra 2024/25, a SLC Agrícola relatou economia de 80% no uso de inseticidas em 382,7 mil hectares por meio de aplicações localizadas. Esse resultado é um dado específico da operação da SLC Agrícola e não deve ser interpretado como uma taxa de economia esperada para qualquer propriedade.
Em paralelo, a identificação de ervas daninhas por sensor — aplicação “bico-a-bico” — gerou 67% de economia de defensivos em mais de 227,7 mil hectares.
Pavinato usa um número simples para explicar por que o Brasil tem mais a ganhar com essa tecnologia do que produtores de clima temperado: o Brasil gasta em média US$ 200 por hectare/ano em defensivos, enquanto os Estados Unidos gastam US$ 50 por hectare/ano, considerando o consumo total dividido pela área plantada.. Quanto maior o gasto de base, maior o espaço para economia com aplicação localizada.

A camada tecnológica que viabiliza esse tipo de aplicação em escala inclui drones de menor porte (capacidade de 40 litros, autonomia de 8 a 12 minutos, rendimento de 12 a 20 ha/h) e um avião elétrico autônomo (300 litros, 45 minutos de autonomia, 70 ha/h de rendimento).
Essas plataformas também reduzem o amassamento de lavoura causado pelo pulverizador terrestre.
O que ainda está em aberto: sucessão, certificação e limites do modelo
Nem tudo neste case está resolvido — e isso é parte do valor de olhar para dados reais. Como já adiantado anteriormente, a sucessão soja → algodão continua sendo uma dúvida em aberto para o próprio Pavinato:
“A sucessão de soja e algodão, que são duas culturas que não têm uma gramínea, […] parece ser uma sucessão não sustentável no longo prazo, pensando na questão de doenças e de carbono no solo.” — Aurélio Pavinato
Na certificação de agricultura regenerativa, a SLC está com 325.769 hectares certificados diante de uma meta de 550.864 hectares até 2030 — ou seja, ainda no meio do caminho, não numa linha de chegada.
E na economia circular on-farm (reciclagem total de resíduo seco e orgânico, incluindo resíduo de alojamentos, via compostagem, eliminando lixões), apenas 11 das 26 fazendas da empresa operam nesse modelo hoje.
Nada disso invalida os números trazidos anteriormente, mas mostra que mesmo o case de referência da agricultura regenerativa brasileira tem adoção parcial, não um pacote fechado e uniforme.
O que você leva para o campo amanhã?
- Produtividade é consequência de manejo, não de expansão de área — a lição central de 50 anos de agro brasileiro.
- Bioinsumos saíram do nicho: em 5 safras a SLC triplicou a área tratada com biológicos, aumentando em 55% a participação dos biológicos entre 2020/21 e 2024/25 (de 11,4% das áreas → para 17,7%).
- Aplicação localizada de defensivos já economiza de 67% a 80% em casos reais, em centenas de milhares de hectares — não é mais promessa piloto, é operação em escala.
- Nem toda sucessão de safras é igual: soja-algodão ainda é ponto de atenção para sustentabilidade de longo prazo, segundo o próprio professor.
- Certificação de agricultura regenerativa é caminho, não chegada — mesmo a maior empresa certificada das Américas está a menos da metade do caminho até sua própria meta de 2030.
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Material de base do artigo
Conteúdo baseado na palestra “Sistemas Agrícolas Promotores de Saúde do Solo como Diferencial Competitivo em Anos Desafiadores”, apresentada por Aurélio Pavinato (CEO da SLC Agrícola; engenheiro agrônomo; mestre e doutor em Ciência do Solo pela UFRGS) no Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo 2026 (SBSS), Dia 1, Palestra 1, 05/08/2026, das 8h45 às 10h00.
Sobre a autora

Beatriz Nastaro Boschiero
Especialista em Conteúdo na Agroadvance
- Pós-doutora pelo CTBE/CNPEM e CENA/USP
- Mestra e Doutora em Solos e Nutrição de Plantas (ESALQ/USP)
- Engenheira Agrônoma (UNESP/Botucatu)
Como citar este artigo:
BOSCHIERO, B.N. Agricultura regenerativa aumenta produtividade? o que os dados reais de 5 safras da SLC Agrícola mostram. Blog Agroadvance, 19 Ago. 2026. Disponível em: https://www.agroadvance.com.br/blog-agricultura-regenerativa-aumenta-produtividade/. Acesso em: 19 ago. 2026.



